Entrevistas Paulo Bastos - Mestrado

Entrevista – Daniel Pereira Cristo – 24/04/2018

NOME: Daniel Pereira Cristo

MORADA: Braga

NATURALIDADE: Braga

 

Que modelo(s) de cavaquinho toca? E com que afinações?

– Sou um curioso por cordofones tradicionais desde que me conheço e no fundo todas as afinações e modelos me interessaram, interessam ou interessarão… porque todos eles abrem um leque de possibilidades de criação fantásticas, riquíssimas e muito distintas. Ainda assim, o modelo que mais tenho utilizado, quer por disponibilidade física quer por aquilo que me foi sendo transmitido ao longo de tantos anos, é o Cavaquinho Minhoto, inicialmente com as afinações AAC#E e GGBD e nos últimos anos predominantemente a afinação DABE.

 

Há quanto tempo toca cavaquinho? Como é que tudo começou? (pequena biografia no que diz respeito/orientada ao cavaquinho)

– Nasci numa casa e família de músicos, com essa disponibilidade de instrumentos, música e canto a rondar a minha existência desde sempre. Curiosamente aquilo que espoletou a minha iniciação com o cavaquinho, foi quando a minha irmã (4 anos mais nova do que eu) pediu um de presente de aniversário. A partir daí (com 7 anos, prestes a fazer 8), nunca mais parei de tocar até hoje – aprendi a tocar os primeiros acordes com o meu pai e ingressei o Grupo Cultural de São Mamede de Este em Braga e a sua secção de música, o Origem Tradicional, onde desenvolvi os meus conhecimentos musicais (em simultâneo com a formação musical na escola Francisco Sanches, com o professor e compositor de Braga António da Costa Gomes), ora aprendendo com os mais velhos, bebendo tudo aquilo que pude, aprendendo o repertório do nosso cancioneiro com os nossos instrumentos, ora de forma autodidacta mexendo em toda aquela panóplia de instrumentos que estavam ali à mão de semear. A minha estreia oficial em concerto com o Origem Tradicional, cantando e tocando cavaquinho, foi no dia 15 de Agosto de 1989, depois de mais de um ano de ensaios com os mais velhos e alguns mini-concertos no seio do grupo (nomeadamente no 10º aniversário, em 14 de Fevereiro de 1988 – o grupo comemora neste ano de 2018 o seu 40º aniversário de actividade ininterrupta). Toquei e gravei cavaquinho com o Origem (“Origem”,1993; “Um Sol Maior”,2007; “Linda Noite”,2013; “As Boltas do Bira”,2014), na Azeituna (Universidade do Minho),  nos “Arrefole” (no álbum “Veículo Climatizado”,2006) e até na banda Pop/Rock Neurónios aBariados (onde gravei cavaquinho no tema “É p’ra amanhã” num pequeno tributo a António Variações que fizemos no álbum “aBariações”,2008). Com o início da AC Museu Cavaquinho e muitas visitas a violeiros com Júlio Pereira, tentando perceber o que poderíamos fazer para que tivéssemos cavaquinhos mais afinados e melhorados (ao nível de escala, pestana, cavalete, sonoridade, etc), surge novamente um interesse redobrado ou triplicado pelo instrumento e pela afinação DABE. Estas experiências chamaram a atenção dos nossos vizinhos da Galiza (que estão a adoptar os nossos cordofones como seus, o que é fantástico), que me convidaram a fazer uma série de mostras e concertos. Júlio Pereira e a ACMC, lançaram-me o desafio de gravar um álbum que tivesse ora o canto, ora o cavaquinho como solistas e gravei o “Cavaquinho Cantado” cujo pré-lançamento foi no dia 14 de Janeiro de 2017, num Theatro Circo de Braga esgotado – tendo sido uma das noites mais felizes da minha vida… percebi definitivamente ali, que era mesmo esta vida que queria para mim. Desde que comecei a minha carreira a solo, com essas primeiras mostras de instrumentos tradicionais, no final do ano de 2014 (inicialmente com Diogo Riço na bandola e André Ramos na viola braguesa, depois com o fantástico trabalho de produção a quem devo tanto de Hélder Costa, com a vinda de David Estêvão no Contrabaixo e André NO nas percussões em finais de 2015, a ingressão de Catarina Valadas na flauta e na voz em finais de 2016 para a gravação do CD e em 2017 com João Conceição nas percussões e Ana Conceição no Violoncelo e na Voz, para a formação completa em octeto – agora em 2018 com Tiago Lemos na viola braguesa e viola, com ajuda no som de Diogo Cocharro e desenho de luzes de Sérgio Lajas), devo ter feito bem mais de 100 concertos e aparições públicas com o nosso cavaquinho como personagem principal e instrumento solista (espero muito poder continuar este caminho com cada vez mais afinco e rigor, com a paixão de sempre).

 

O que o fascina no cavaquinho português particularmente? O que o faz apreciar e escolher o instrumento para se exprimir artisticamente?

– Como em qualquer outro instrumento, a vontade de superação de criar coisas novas com a vantagem de que é um instrumento onde ainda pouco foi feito, temos portanto muito por fazer por e com ele. É como o desbravar de novos caminhos, com um instrumento pequeno, mais com uma sonoridade muito distinta e técnicas que o fazem soar de uma forma incrível que não deixam ninguém indiferente.

 

Quais as suas referências e influenças musicais mais importantes na abordagem ao cavaquinho? E qual a sua importância?

– Eu sou um apaixonado por música instrumental e gosto mesmo muito de criar música instrumental com o cavaquinho (para além do bandolim e da viola braguesa)… Em termos genéricos a minha banda de referência são os galegos Berroguetto, em termos particulares, logicamente o nosso Júlio Pereira abriu caminhos para que estivéssemos a falar aqui mesmo de cavaquinhos. Sem ele duvido que o nosso cavaquinho tivesse a expressão e vitalidade que hoje tem! Acaba por ser a grande referência do instrumento em Portugal.

 

Que outros instrumentistas/tocadores solistas de cavaquinho conhece que considera relevantes?

– Carlos Batista, Pedro João, Renaldo Marques, Xico Malheiro, Mauro Passos, Alberto Marinho, Paulo Rocha, João Frazão, Chico Gouveia, Óscar Fernandez (galiza), Zézé Fernandes, Pedro Caldeira Cabral, João Vila, Ricardo Gonçalves, Lara Santos, Luís Peixoto, Sérgio Mirra, Tiago Machado, Rui Santos, Paulo Bastos, Vasco Casais, Hélder Costa, Pedro Damasceno, Joca Araújo, Amadeu Magalhães, José Amorim Filipe José Silva, Marco Silva e, na Madeira, Roberto Moritz, Roberto Moniz, Guilherme Órfão e Paulo Esteireiro (braguinha), entre tantos outros que estão a aparecer e vão certamente aparecer, com o trabalho que se tem vindo a desenvolver.

 

Que associações conhece ligadas à música onde o cavaquinho seja um interveniente de alguma forma? Quais?

– A principal será a Associação Cultural e Museu Cavaquinho, liderada por Júlio Pereira, que tem vindo a organizar, de forma paulatina, despretensiosa e com um espirito verdadeiramente associativo, tudo aquilo que é a dimensão e prática do cavaquinho em Portugal, fazendo com que as pessoas se conheçam entre si e percebam o fantástico e vasto mundo que é a prática do cavaquinho, da sua construção, da sua parte lúdica, etc, apontando com esperança para um caminho onde haja mais e melhores violeiros e tocadores, apontando com esperança para mais rigor e para que possam aparecer mais profissionais, apontando um caminho de respeito pelo instrumento e a sua possível internacionalização, como valor cultural português.

 

Que repertório utiliza nos seus projetos em que inclui cavaquinho?

– Para além de arranjos de músicas tradicionais, bastantes composições instrumentais ou em canção (grande parte não registada para já).

www.youtube.com/danielpereiracristo

www.youtube.com/danielpereiramusico

 

Que técnicas utiliza no cavaquinho português? Quais das mesmas são as que utiliza com mais frequência?

O rasgado, o ponteado com os quatro dedos (polegar, indicador, médio e anelar), o ponteado com 3 dedos, o ponteado só com o indicador ou o ponteado só com o polegar. A predominância é, sem dúvida o rasgado e as suas inúmeras variáveis (indicador e polegar para cima e para baixo separados consoante o tempo da música mas tocados como se fosse um só; polegar só para cima, polegar só para baixo, etc).

 

Considera que o Cavaquinho Português é um instrumento levado suficientemente a “sério” nos diferentes meios musicais?

– Ainda não, mas só depende de nós fazer música com o rigor necessário e produção fundamental, para que possa sê-lo. Diz-se que a união faz a força e se muitos fizermos música cada vez melhor com o instrumento, ele poderá “furar” e ganhar o “tempo de antena”, respeito e concertos, que espero venha a conseguir.

 

Acha viável uma carreira de músico solista especializado e fazendo carreira apenas e só no cavaquinho português?

– Eu espero bem que sim! É isso que estou a arriscar, e quero muito, fazer! Lutarei sempre por isso! Embora como multi-instrumentista, gosto da liberdade de tocar qualquer instrumento, cantar e fazer a música que me apetecer com todos eles, gosto de ser livre ; )

 

Quais as dificuldades que teve ao tentar ser um músico solista de cavaquinho?

– Ter que construir um mercado, ter que montar um concerto com a produção pensada ao pormenor, para ser levado a sério e ser tido em conta para programações em grandes palcos e teatros, como felizmente tem vindo a acontecer. Mas esta é no fundo a luta de qualquer músico e qualquer outro instrumento (embora nesta área em particular, tenhamos talvez que lutar contra alguns preconceitos – mas é teimar e fazer as pessoas acreditarem que se pode fazer música muito interessante, para os dias de hoje.

 

Quais as facilidades e vantagens que considera ter  como músico solista de cavaquinho?

– É uma realidade no fundo bipolar… Se por um lado há pouca gente a fazer trabalho profissional com o cavaquinho, por outro acaba-se por não ter força no mercado por sermos poucos…

 

Considera que faz sentido explorar o cavaquinho português como instrumento solista? Porquê?

– Porque é um instrumento mesmo diferente, com uma sonoridade bem exótica. Já tive oportunidade de o tocar em vários países, nomeadamente Espanha, França, Brasil ou Azerbaijão… e as pessoas acham-no mesmo exótico e vêm fazer perguntas entusiastas… o futuro tem que ser mesmo esse, olhar para a internacionalização e pensar no mercado Europeu, por exemplo… ao invés de pensar só no mercado português, mas para isso temos que ter alguma força e desenvolver alguns mecanismos (nomeadamente a nível governamental por exemplo, a par do que se faz com o fado – como “cartão de visita cultural”).

 

Que acha da utilização da nomenclatura Cavaquinho Portugues para de forma agregadora denominar e agrupar todos os modelos de cavaquinho português (modelo minhoto e diferentes modelos urbanos do continente e ilhas)?

– Acho bem e essa união (sem perda da identidade particular de cada um), pode dar mais força a toda a prática do cavaquinho, para que possa ser mais facilmente entendível para um estrageiro, por exemplo.

 

Como vê o futuro do cavaquinho português enquanto instrumento solista?

– Tem tudo para continuar a evoluir dado todo o entusiasmo em torno do instrumento, temos que perceber que estamos a dar os primeiro passos e que temos que fazer muita e muito boa música, para que possa vir a chegar a ser aquilo que todos ansiamos e desejamos.

 

Que projetos tem para o futuro no que diz respeito ao cavaquinho Português?

– Estive a ajudar na produção do álbum colectivo que a Museu Cavaquinho lançará em breve com 12 novos temas de vários tocadores (será um disco experimental, que espero possa promover novas abordagens). Espero continuar com os meus concertos em octeto (ou sexteto ou quinteto ; ) e fazer vida em torno do cavaquinho, do canto e outros instrumentos tradicionais. Espero até final do ano gravar mais álbum onde o nosso cavaquinho será, certamente, uma das personagens principais.

 

Que assuntos gostaria de ver estudados sobre o cavaquinho português?

– Refinar a construção, sempre! Sem bons instrumentos é mais difícil haver boa música… Explorar novas técnicas, novos repertórios e estilos (à semelhança do que aconteceu com a guitarra no flamenco…).

 

Que sugestões tem para dar?

– Rigor e trabalho nas produções e composições! Esse é o maior contributo que todos podemos dar (tentar sempre fazer o melhor possível e impossível), tentarmo-nos superar a cada passo e explorar novos caminhos, transportando os instrumentos para que façam sentido nos dias de hoje (esse é o maior contributo que podemos dar e só assim poderemos criar escola, novos interessados e com a força de muitos neste caminho, criar um verdadeiro movimento e mercado, respeitado e com futuro).

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