Entrevistas Paulo Bastos - Mestrado

Entrevista – Júlio Pereira – 15/05/2018

Foto por António Gamito

NOME: Júlio Pereira

LOCALIDADE Lisboa

NATURALIDADE: Lisboa

 

Que modelo(s) de cavaquinho toca/estuda? que afinações?

Cavaquinho tipo Minhoto. Sempre com a afinação mi-si-lá-ré (de baixo para cima), excepto no meu último disco para o qual compus duas peças com a afinação ré-si-sol-sol e, também pela primeira vez, duas peças com braguinha (ré-si-sol-ré).

 

Há quanto tempo toca/estuda o cavaquinho? Como é que tudo começou? (pequena biografia no que diz respeito/orientada ao cavaquinho)

Tudo começou em 1978, num passeio com Pedro Caldeira Cabral na costa do Castelo em Lisboa; vimos numa montra de uma loja de instrumentos dois cavaquinhos que acabámos por comprar (900 escudos cada). Nessa altura, costumávamos conversar e tocar juntos informalmente, em sua casa, e foi com ele que troquei as primeiras palavras sobre o cavaquinho.

Passado não muito tempo (estamos em 1979), José Afonso convidou-me para trabalhar com ele. Refiro o Zeca por ter sido circunstancialmente – no caso do cavaquinho – elemento fundamental para o disco que eu viria a gravar em 1981.

Importante por três motivos: primeiro, pela necessidade de orquestração de duas das suas canções (relacionadas com o Minho): “O Cabral fugiu p´ra Espanha” e “As Sete mulheres do Minho”, onde o cavaquinho se enquadrava muito bem – o que me levou a desenvolver a técnica do rasgado; segundo, pelas circunstâncias de saúde em que o Zeca se encontrava que levaram a que ele me pedisse para  tocar duas ou três peças com o cavaquinho em todos os seus concertos; e, por último, o facto de, na altura, os restantes elementos do grupo que comigo o acompanhavam – Sérgio Mestre e Janita Salomé – me acompanharem também em situações informais.  Este conjunto de circunstâncias fez com que tocasse todos os dias, até que decidi fazer um disco para o qual trabalhei exaustivamente até à sua gravação. É pertinente indicar que, neste processo, o ano de 1980 e os dois seguintes foram importantes, pois só com José Afonso no estrangeiro acabei por mostrar o cavaquinho em mais de oitenta concertos.

No decorrer desses anos visitei Braga para conhecer o construtor Domingos Machado e o seu pai – únicas referências, a nível de construção de cavaquinhos que tinha na altura – e o tocador Bernardino Silva.

Em 1980 conheci também um importante personagem – Ernesto Veiga de Oliveira, então director do Museu Nacional de Etnologia e autor do livro “Instrumentos Musicais Populares Portugueses – que, ao ouvir algumas gravações em cassete do trabalho que desenvolvi, me impulsionou para a sua publicação, acabando por prefaciar o disco “Cavaquinho”, Ed. Sassetti, 1981.

 

O que o fascina no cavaquinho português particularmente? O que o faz apreciar e escolher o instrumento como objeto de estudo ou para se exprimir artisticamente?

Digamos que se trata de uma coincidência entre instrumento e instrumentista.

O instrumento tipo minhoto, devido às suas características, proporciona a técnica/prática do rasgado.

Em relação ao instrumentista – que passa obviamente pela maneira como este se exprime -, no meu caso, o facto de ser energético e rítmico.

 

Quais as suas referências e influências musicais mais importantes na abordagem ao cavaquinho? E qual a sua importância?

Até ao 25 de Abril, a música que se ouvia (na rádio e na televisão), mais directamente relacionada com a nossa cultura (além do fado), era a dos ranchos folclóricos. Com uma particularidade austera e na maioria deles errada: uma quase ausência de instrumentos de corda e um grande protagonismo do acordeão… Naturalmente desinteressei-me por este tipo de música.

Fui músico de Rock durante a minha adolescência e obviamente era essa a música que mais ouvia. Logo após o 25 de Abril, comecei a tocar viola acústica participando nos discos dos nossos mais importantes cantautores. Para além da música destes e das recolhas realizadas por Ernesto Veiga de Oliveira e por Michel Giacometti, ouvia a chamada Nova MPB (Música Popular Brasileira) e Jazz. Estas influências são notórias no disco “Cavaquinho”. Entretanto comecei paulatinamente, neste ou naquele disco, neste ou naquele concerto, a dar os primeiros passos nalguns dos nossos cordofones até começar a dedicar-me ao cavaquinho.

Seleccionei algumas canções tradicionais que gostava e trabalhei nelas exaustivamente, de maneira a que o “cantor” fosse o próprio cavaquinho.

Sobre a importância das influências que temos, refiro as principais que são as que vêm de “fora”.

Os países têm fronteiras, mas os homens não. A música é o conjunto de todas as músicas do mundo.

 

Que associações culturais ou outras que conhece ligadas à música onde o cavaquinho seja um interveniente de alguma forma? Quais?

A Associação Cultural Museu Cavaquinho criou o site mais completo sobre a prática deste instrumento: www.cavaquinhos.pt . Para melhor responder a esta questão basta visitar a página “Ligações” que contém mais de 300 endereços de sites, blogs, associações, músicos, construtores, grupos amadores, etc. Esta Associação foi constituída em 2013 e tem como fim documentar, preservar e promover a história e a prática do cavaquinho. É uma Associação pequena, com fracos recursos, sem fins lucrativos, que tem sobrevivido com apoios pontuais de algumas instituições. Ainda assim, o Museu Cavaquinho promoveu uma grande Exposição Colectiva Nacional e Itinerante – 70 CAVAQUINHOS 70 ARTISTAS – inaugurada no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, e já foi apresentada em mais onze localidades portuguesas e também na Feira de Arte Contemporânea de Montreux (Suíça) http://www.cavaquinhos.pt/pt/Exposicao.htm. Produziu pela primeira vez, em Portugal, dois CDs originais de tocadores de Cavaquinho (Amadeu Magalhães e Daniel Pereira), inventariou os Construtores, os Grupos de Cavaquinho e locais de ensino (continente e ilhas), estabeleceu protocolos de colaboração com várias entidades (câmaras municipais, instituições de ensino superior e outros), deu início ao registo fonográfico nacional, iniciou com a DGPC (Direcção Geral do Património Cultural) um protocolo, que mantém desde 2014, que consiste no projecto de investigação antropológica “Construtores de Cavaquinho” que tem como objectivo final o registo dos saberes e técnicas relativos à construção do cavaquinho no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, como medida fundamental para a sua salvaguarda e valorização à escala nacional. Iniciou os trabalhos com vista a um método académico de cavaquinho e está a produzir o primeiro disco de originais de vários tocadores. Esta Associação conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República.

No seu Site podemos encontrar ainda o Mapa de Portugal Continental e Ilhas  http://www.cavaquinhos.pt/pt/Mapa.htm, localizando nele os Construtores, os Grupos de Cavaquinhos e os locais de ensino, e ainda várias páginas com publicações, acordes, partituras, vídeos, fotos e outros documentos relacionados com a história do cavaquinho para além de mais de 300 fotos de modelos de cavaquinhos criados pelos nossos violeiros http://www.cavaquinhos.pt/pt/CAVAQUINHO/Cavaquinho%20PT%202.htm

 

Que repertório utiliza nos seus projetos em que inclui cavaquinho? Desenvolveu algum repertório original/arranjos para Cavaquinho Português? Pode por favor enumerar aqui? Pode também fornecer partituras ou áudio ou vídeo ou link de internet para estes elementos multimédia?

A música que eu próprio componho. Apenas no Álbum “Cavaquinho”, Ed. Sasseti 1981, utilizei repertório tradicional.

Álbuns: BRAGUESA – 1983 LP Sassetti, NORDESTE – 1983 EP Transmedia, CÁDOI – 1984 LP Transmedia, OS SETE INSTRUMENTOS – 1986 LP Transmedia, MIRADOURO – 1988 LP cnm, ACÚSTICO – 1994 CD Sony Music, LAU ESKUTARA (com kepa Junkera) – 1995 CD Elkar (Espanha), RITUAIS – 2001 – CD cnm, CAVAQUINHO.PT – 2014 CD Tradisom e PRAÇA DO COMÉRCIO – 2017 CD + LP Tradisom.

Todos os links relacionados com o meu trabalho podem ser encontrados no meu site oficial: www.juliopereira.pt

 

Que técnicas utiliza no cavaquinho português? Quais das mesmas são as que utiliza com mais frequência? (No caso de ser investigador não tocador, que técnicas conhece e que são tipicamente atribuídas aos diferentes modelos?)

Ponteado, dedilhado e rasgado (principalmente).

 

Considera que o Cavaquinho Português é um instrumento levado suficientemente a “sério” nos diferentes meios musicais?

Não… Ainda não. Sei, por exemplo, de músicos jovens que não sabem o que é um cavaquinho. Parece mentira? Sim… Mas é verdade. Para que um instrumento musical seja “levado a sério” é preciso tempo… Anos… E que, ao longo desse tempo, vão surgindo músicos que o toquem bem e deixem marcas dessa “mestria”. Ora, a prática do cavaquinho em termos profissionais é ainda muito pequena e curta…  (Podia aqui mencionar como contraponto os tocadores de Guitarra Portuguesa no Fado… Pois, mas este tem mais de cem anos de prática…! E diária…)

Nesta questão concreta (do instrumento ser “levado a sério”) não nos podemos esquecer dos violeiros! Uma das acções mais gratificantes que a AC Museu Cavaquinho tem tido é exactamente proporcionar que o país e o mundo saibam da existência dos nossos construtores e dos seus instrumentos. Em particular, dos cavaquinhos que vão produzindo.

Hoje, posso afirmar, que se constrói muito melhor! Porque tem havido mais diálogo entre tocadores e construtores. Sobretudo entre construtores e músicos com preocupações profissionais, reivindicando um instrumento melhor construído, com melhor som, melhor afinação, etc.

Mas tudo isto é recente na história da prática do cavaquinho. Uma das maiores concretizações que a AC Museu Cavaquinho tem tido é a criação de projectos que visam exactamente a consideração pelo instrumento, no sentido de mostrar aos que não sabem este bem patrimonial que temos.

 

 

Acha viável uma carreira de músico solista especializado e fazendo carreira apenas e só no cavaquinho português (sem necessitar de tocar mais nenhum instrumento)?

A pergunta até tem graça…. Dirigida a mim…! Quando gravei o disco “Cavaquinho” em 1981 apenas pretendia… Gravar um disco. A própria vida encarregou-se de “viabilizar” a minha carreira profissional como instrumentista.

Se, felizmente, fiz discos com outros instrumentos como solista, foi por querer e não por dificuldade.

 

Quais as dificuldades que teve (ou acha que teria) ao tentar ser um músico solista de cavaquinho?

Quando em 1981 tinha a maquete pronta do disco que queria gravar – e consciente de que era o primeiro disco onde o cavaquinho era solista -, contactei três importantes editoras em Lisboa que me disseram “não”. Um dos responsáveis de uma delas que tardava em dar-me a resposta mais tarde disse-me: “Quê? Gravar essa merda?”. Depois do êxito desse disco em vendas e prémios, o mesmo pediu-me desculpa. Os outros que também não o quiseram editar posteriormente felicitaram-me, reconhecendo que se enganaram.

Só posso falar das dificuldades que tive pois não me posso colocar na pele de um jovem que hoje o tente. Ainda assim arrisco em imaginar que teria dificuldades… Umas parecidas com as que tive nos finais dos anos 80…. Outras novas (provenientes da era digital).

Tenho de referir particularmente uma, diria, desconfiança: quando saiu o álbum “Cavaquinho” em 81, este passou em toda a rádio: programas genéricos, programas específicos de Jazz, Rock e Música Erudita. Hoje…. Muito provavelmente tal não aconteceria.

 

Considera que faz sentido explorar o cavaquinho português como instrumento solista? Porquê?

Sim, faz, faz todo o sentido. Porque é um instrumento com uma grande vitalidade e alegria que consegue um discurso próprio a fazer música (evidentemente refiro-me ao cavaquinho tipo minhoto que por norma sempre utilizei). Comecei essa exploração há 40 anos. É fundamental que outros mais jovens o conheçam e o trabalhem. Mas mais importante que o estudo que se possa fazer com um instrumento é a música que com ele se compõe. E, a meu ver, a música é o importante – é o mais importante! Pois só ela se torna imortal. Tanto quanto o instrumento que foi utilizado.

 

Que acha da utilização da nomenclatura Cavaquinho Português para de forma agregadora denominar e agrupar todos os modelos de cavaquinho português (modelo minhoto e diferentes modelos urbanos do continente e ilhas)?

Ernesto Veiga de Oliveira, no seu livro “Instrumentos Musicais Populares Portugueses”, diz-nos o seguinte: “Além deste nome, encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com ele relacionados, as designações de machinho, machim, machete (que parece ser uma palavra arcaica, caída em desuso, e subsistente nas Ilhas e no Brasil), manchête ou marchête, braguinha ou braguinho, cavaco, etc.,”

Acabamos por utilizar determinado nome por hábito/costume da região onde vivemos.

Mas não é o nome que importa. O importante é conhecermos as características específicas de cada tipo de cavaquinho, pois são estas que permitem a utilização de técnicas diferentes. Claro que se pode tocar de ponteado num cavaquinho do tipo minhoto… Mas não é de todo o melhor instrumento para tal. De igual modo, utilizar o rasgado (que se utiliza no referido tipo) num cavaquinho com a escala em ressalto não será de todo prático. Nem cómodo…

Acho importante a nomenclatura “Cavaquinho Português” porque, de facto, o nosso cavaquinho distingue-se dos irmãos Brasileiro e Cabo-Verdiano.

Acho tão respeitosa a nomenclatura de cavaquinho para abranger todos os tipos de cavaquinho em Portugal como respeito que na Madeira as pessoas chamem ao seu “cavaquinho” de “braguinha” ou “machete”. É esta a sua história regional e o seu passado.

 

Como vê o futuro do cavaquinho português enquanto instrumento solista?

De maneira optimista. Hoje já não há razão para não haver bons instrumentos. Hoje há bons violeiros! Basta completar o cenário com bons intérpretes. E boa música.

 

Que projetos tem para o futuro no que diz respeito ao cavaquinho Português?

A nível pessoal tenho dois projectos que gostaria de concretizar.

Em nome da AC Museu Cavaquinho posso revelar que estamos a trabalhar em três projectos diferentes:

1 Um livro (bilingue), prestes a publicar, do antropólogo Jorge Dias: “O Cavaquinho – Estudo de difusão de um instrumento musical popular”, uma edição realizada no âmbito do protocolo de colaboração estabelecido entre a AC Museu Cavaquinho e o Museu Nacional de Etnologia.

2 Um disco colectivo de originais com vários tocadores de cavaquinho.

3 Um método de ensino para o cavaquinho.

 

Que assuntos gostaria de ver estudados sobre o cavaquinho português?

Todos os que fossem um desenvolvimento e actualização dos conteúdos que encontramos no livro “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” de Ernesto Veiga de Oliveira.

É inevitável e fundamental esta actualização.

Dou como exemplo uma experiência vivida por mim (documentário “Os homens do cavaquinho” para a RTP de Ivan Dias) que no fundo aconteceu por uma indicação neste livro – apesar de precária – sobre um instrumento o “Keroncong” da Indonésia. Em dez dias nesse país testemunhei uma realidade consequente da nossa passagem e fixação nessas terras onde, ainda hoje, podemos ouvir os seus “cavaquinhos” numa determinada zona da ilha de Java (Tugu). Ora, esta realidade é necessariamente merecedora de um estudo etnomusicológico que confronte um outro já feito em Jacarta.

 

Que sugestões tem para dar?

Sugiro trabalho, modéstia e paciência – na arte ou ofício a que cada um cabe – a todos os implicados neste universo do cavaquinho, se na realidade queremos/desejamos que este instrumento se torne nobre (como dizias “levado a sério”).

Este universo é composto por três grupos: Músicos, Construtores e Académicos. Todos eles vaidosos. Ora, num país onde não reina propriamente um sentido comunitário é fácil perceber porque refiro este comportamento.

Até 2013 – ano da constituição da AC Museu Cavaquinho – não havia qualquer informação organizada sobre a prática do cavaquinho. Fez-se mais nestes últimos quatro anos do que desde sempre – englobando vários conteúdos e com constantes actualizações.

É fácil entender que não podemos desejar que, de repente, tudo aconteça.

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