Entrevistas Paulo Bastos - Mestrado

Entrevista – Roberto Moniz – 01/05/2018

NOME: Roberto Moniz

MORADA: Santa Cruz, Madeira

NATURALIDE: Freguesia do Monte, Funchal

 

Que modelo(s) de cavaquinho toca? E com que afinações?

Quero deixar bem claro que todas as minhas respostas se referem ao machete (Madeirense) e ao braguinha, que não os considero um cavaquinho, tão pouco concordo com a nomenclatura criada tal como já referi em conversa por telefone. Nesse sentido, e respeitando o trabalho académico vou responder a todas as questões.

Toco machete (Madeirense) e braguinha. Com afinação DGBD. E tenho experimentado mais recentemente a afinação DGBE, depois de ter conhecimento de algumas peças (manuscritas) para esta afinação.

 

Há quanto tempo toca cavaquinho? Como é que tudo começou? (pequena biografia no que diz respeito/orientada ao cavaquinho)

Cheguei a tocar cavaquinho minhoto em 1988 e 1990, mas nunca desenvolvi as técnicas, apenas tirei de ouvido algumas peças do primeiro álbum de cavaquinho do Júlio Pereira.

Desde os meus 8/9 anos que toco braguinha, mais concretamente acordes para acompanhar o “bailinho” (género musical madeirense). Aprendi com os meus pais porque em casa sempre tivemos vários instrumentos, tais como braguinha, rajão, viola d’arame, viola, bandolim, guitarra portuguesa, harmónica de beiços, concertina e acordeão.

Tudo começou sentado num pequeno banco daqueles de construção caseira muito baixinho, e num braguinha de apenas três cordas (GBD) lá comecei a fazer os acordes de Dó e Sol, e já treinando também o ritmo de Bailinho. Não desenvolvi outras técnicas além do rasgado porque a minha mãe (quem passava mais tempo comigo) também não as sabia.

Quando falo do braguinha de apenas três cordas (GBD), sem a 4.ª corda D, falo de uma prática que era comum na minha zona (Santa Cruz – Madeira), tocar apenas com três cordas, talvez porque era uma prática tirar a 4.ª corda, não sei se por ser um bordão ou por ser mais difícil de fazer os acordes, o que me lembro, é que o braguinha tinha mesmo só 3 cordas. Os rajões por Machico e Santa Cruz também tinham apenas 4 cordas, embora estivessem preparados para as 5, pois da mesma forma como para o braguinha, esta corda era retirada talvez para tornar mais fácil fazer os acordes.

Mais tarde com uns 12 anos comecei a aprender viola e braguinha por partitura com o professor Manuel Vieira, e, nessa fase também desenvolvi outras técnicas como o dedilhado e algumas melodias em “ponteado” (a chamada técnica para fazer melodias com o polegar).

Desde os meus 14 anos que fiz parte do Grupo de Folclore de Santa Cruz. Essa prática alertou-me para a importância do património material e imaterial e, nesse sentido, sendo eu um dançarino de danças tradicionais, comecei a interessar-me mais em tocar e cantar do que propriamente dançar, e como já sabia uns acordes, um dia faltaram músicos para os cordofones e então como tinha muitos dançarinos eu avancei para os instrumentos e a partir daí nunca mais deixei de tocar e cantar.

Aos meus 18 anos, após alguns anos de prática no folclore, surgiu a possibilidade de ingressar na Secretaria de Educação como professor de Cordofones Madeirenses e desde o ano de 1989/90 que sou professor destes instrumentos. Atualmente sou professor no Conservatório Escola Profissional das Artes da Madeira no Curso Especializado de Cordofones Madeirenses.

Toco machete nos projetos: Franco & Cordofones Madeirenses, Varejenta e Xarabanda. Também estou a estudar peças a solo a fim de melhorar a minha performance.

 

O que o fascina no cavaquinho português particularmente? O que o faz apreciar e escolher o instrumento para se exprimir artisticamente?

Desde pequeno que o toco e desde os meus 18 anos que o ensino, mais concretamente 30 anos a lecionar este instrumento.

O que mais me fascinou foi perceber que este instrumento tinha possibilidades de evoluir e fazer diferente dos habituais modelos, a guitarra elétrica e/ou viola, e por isso quis ser um dos seus praticantes. O timbre e o tamanho também foram duas das condicionantes para esta escolha. O facto de possuir este instrumento em casa foi também outra vantagem para o poder praticar, mas acima de tudo, por ser um instrumento da minha terra e querer manter a tradição não deixando que se perdesse a sua prática foi um dos principais fatores de escolha, pois desde cedo comecei a interessar-me por ensinar e criar grupos para performance. Sempre gostei de andar no palco e apresentar o meu trabalho.

Neste instrumento, fui sempre ao longo do tempo mais um professor do que propriamente um praticante a solo.

 

Quais as suas referências e influências musicais mais importantes na abordagem ao cavaquinho? E qual a sua importância?

Uma das minhas inspirações no início das minhas práticas foi Júlio Pereira e o grupo Xarabanda, mais concretamente a música tradicional. Mais tarde nos projetos que comecei a desenvolver, tais como Orquestra de Ponteado e Machetinho, inspirei-me na Ukulele Orchestra of GB, pois cheguei à conclusão que se era possível fazer o que eles faziam no ukulele então também seria possível fazer com os nossos cordofones e daí para cá surgiram alguns grupos seguindo este modelo.

Para mim esses modelos de grupos utilizando os “Ukulele”s foram muito importantes para o desenvolvimento dos meus projetos. A internet e todos os modelos que existem têm influenciado em muito a minha prestação enquanto professor e enquanto responsável pela criação de grupos.

 

Que outros instrumentistas/tocadores solistas de cavaquinho conhece que considera relevantes?

(Entenda-se como solista o instrumentista SOLISTA que faz um concerto do inicio ao fim em que o Cavaquinho é o ponto central/solista ou o instrumentista que tenha editado/gravado um ou mais CDs em que o cavaquinho é o ponto central/solista em todas as músicas ou quase na totalidade delas (quando se refere ponto central/solista pretende-se dizer instrumento que toca a solo sozinho ou que tocando em grupo faz a parte mais relevante e importante da música, ou seja o que tipicamente se chama a melodia/parte principal).

Roberto Moritz (Quarteto Moritz); Vítor Filipe (Emperium); Guilherme Órfão (projetos a solo); Pedro Gonçalves (Compositor e instrumentista); André Santos (Músico de Jazz instrumentista e compositor); Carlos Baptista Júnior (instrumentista e compositor); Pedro Cristo (instrumentista e compositor); Amadeu Magalhães (instrumentista); Júlio Pereira (instrumentista e compositor); João Vila (instrumentista) e o próprio Paulo Bastos autor deste inquérito.

Samantha Muir (Instrumentista e compositora) – Inglaterra; Herman Vandecauter (instrumentista) – Bélgica; Rob Mackillop (instrumentista) – Alemanha.

 

Que associações conhece ligadas à música onde o cavaquinho seja um interveniente de alguma forma? Quais?

Apresento aqui algumas das mais importantes associações que trabalham com cordofones madeirenses:

  • Associação Musical e Cultural Xarabanda – Funchal, através da sua Escola de Cordofones Madeirenses – machete, braguinha, rajão e viola d’arame (http://xarabanda.pt/escola-de-cordofones/) e através dos seus vários grupos:

Xarabanda (http://xarabanda.pt/grupo-xarabanda/);

Orquestra de Ponteado (http://xarabanda.pt/orquestra-de-ponteado-da-madeira/);

Quarteto Moritz (http://xarabanda.pt/quarteto-moritz/);

Trio Zargo (http://xarabanda.pt/trio-zargo/);

Vértice (http://xarabanda.pt/vertice/).

Ainda no apoio aos grupos: Varejenta (http://xarabanda.pt/); Cordofones Madeirenses & Amigos, atualmente com Franco; Fado Funcho; Otus Mauli (http://www.dnoticias.pt/5-sentidos/projecto-musical-otus-mauli-e-apresentado-amanha-ED2674776);

Existem ainda algumas associações por toda a ilha que ensinam e têm alguns praticantes mas que não consegui encontrar links para publicar aqui.

 

Que repertório utiliza nos seus projetos em que inclui cavaquinho? Desenvolveu algum repertório original/arranjos para Cavaquinho Português? Pode por favor enumerar aqui? Pode também fornecer partituras ou áudio ou vídeo ou link de internet para estes elementos multimédia?

O repertório que utilizo é variado e vai desde o músicas infantis, tradicional ao pop/rock, passando pelo erudito, jazz, blues, música brasileira, clássicos mundiais, músicas de filmes e originais de músicos madeirenses.

Também tenho desenvolvido algum repertório para machete e braguinha nomeadamente peças de iniciação visto que o repertório que existe para este instrumento tem já um grau de dificuldade elevado para quem inicia a sua prática. Aqui ficam alguns exemplos:

As Cordas”; “O Cordofone”; “Cantar os Reis”; “Tudo Vou Varrer”; “Mascarados”; “Malassadas”; “Caça Cogumelos”; “O Braguinha vou tocar”; “Valsa do Machete”; “Waikiki”; “Gente d’Oficio”; “Jardim”; “Cajo Polka”.

 

Que técnicas utiliza no cavaquinho português? Quais das mesmas são as que utiliza com mais frequência?

A técnica utilizada desde o início (primeira aula) é o dedilhado ou harpejado com utilização dos dedos (P, I, M, A), livre sem apoio, para fazer melodias.

O rasgueado, puxado ou dedilhado para acompanhamentos com acordes.

Não utilizo a técnica de tocar tudo com o polegar.

 

Considera que o Cavaquinho Português é um instrumento levado suficientemente a “sério” nos diferentes meios musicais?

No meio musical onde estou inserido, Ilha da Madeira e nos projetos em, que estou envolvido, os intervenientes levam a sério e valorizam a sua prática. A Secretaria de Educação até criou uma modalidade artística que se chama “Modalidade Artística de Cordofones Madeirenses” (http://www02.madeira-edu.pt/portals/5/documentos/educacao_artistica/institucional/mod.23-daea-ma-modalidadecordofonestradicionaismadeirenses.pdf), (https://www.researchgate.net/publication/315823706_Modalidades_Artisticas_na_Regiao_Autonoma_da_Madeira_Portugal_Das_primeiras_atividades_de_enriquecimento_curricular_a_definicao_do_atual_modelo_de_politica_educativa_1985-2016).

No entanto, no Conservatório Escola Profissional da Artes da Madeira, o Curso de Cordofones Madeirenses não é reconhecido como um curso oficial pelo governo da região nem pela ANQEP, nesse sentido, não me parece que seja levado a sério, pois falta cultura ao governo para reconhecer o que é cultura.

 

Acha viável uma carreira de músico solista especializado e fazendo carreira apenas e só no cavaquinho português (sem necessitar de tocar mais nenhum instrumento)?

Sim acho, em qualquer uma das vertentes dos cordofones de mão portugueses, nomeadamente o instrumento que toco, o machete e o braguinha, pois por todo o mundo, existem grandes solistas de machete que têm visitado a Madeira nestes últimos anos e que nos seus espetáculos usam o instrumento como solista, têm criado composições originais e arranjos dos mais variados géneros e temas internacionais e eruditos.

Qualquer músico que se prese em fazer uma carreira musical a solo neste instrumento tem que ser muito original e desenvolver um projeto que possa ser acarinhado por forma a poder ser convidado para os mais variados eventos. Neste sentido, também registar em áudio ou vídeo os seus trabalhos. Como exemplo deixo aqui o Júlio Pereira que tem inúmeros concertos de performance nestes instrumentos, mais concretamente o cavaquinho minhoto.

 

Quais as dificuldades que teve (ou acha que teria) ao tentar ser um músico solista de cavaquinho?

Para ser músico solista, em primeiro lugar ter um repertório atrativo e ser um excelente intérprete que marque a diferença perante o panorama musical dominante. Em segundo conseguir uma agência de promoção para agenciar espetáculos por Portugal e depois partir para todo o mundo. Em terceiro, inovar, gravar e divulgar para fazer autossubsistência do projeto.

 

Quais as facilidades e vantagens que considera ter (ou que pensa que teria) como músico solista de cavaquinho?

Como facilidades parece-me que enquanto solista seriam, ter a oportunidade de escolher o seu repertório sem ter que agradar a outros elementos possíveis músicos de um ou outro projeto.

As vantagens estariam relacionadas com o desenvolvimento da sua performance individual; possibilidades de ser convidado a tocar ou gravar em outros projetos; dar-se a conhecer como músico; dar a conhecer o instrumento.

 

Considera que faz sentido explorar o cavaquinho português como instrumento solista? Porquê?

Sim certamente.

Porque é diferente de outros instrumentos dominantes na sociedade e constitui-se como uma surpresa agradável, na sonoridade e no repertório acima de tudo.

 

Que acha da utilização da nomenclatura Cavaquinho Português para de forma agregadora denominar e agrupar todos os modelos de cavaquinho português (modelo minhoto e diferentes modelos urbanos do continente e ilhas)?

Não concordo muito com o termo, para mim machete seria um termo mais correto sendo um nome supostamente mais antigo que cavaquinho. No entanto, é certo que cavaquinho é já um nome conhecido por todo o mundo. Mas machete (madeirense), nunca foi chamado de cavaquinho.

Sugestão: Cavaquinho e Machete português.

 

Como vê o futuro do cavaquinho português enquanto instrumento solista?

Parece-me caminhar para uma maior valorização tendo em conta o crescente número de praticantes.

 

Que projetos tem para o futuro no que diz respeito ao cavaquinho Português?

Muitos, como por exemplo:

Criação de mais grupos; concursos de performance; concursos de composição para estes instrumentos; edição de partituras; gravações; estágios/seminários com tocadores; debates e investigação.

 

Que assuntos gostaria de ver estudados sobre o cavaquinho português?

Origem do nome Cavaquinho.

Pesquisa de repertório.

Técnicas.

Métodos ou tratados sobre os vários modelos.

 

Que sugestões tem para dar?

Haver maior partilha do repertório erudito encontrado para estes instrumentos, nomeadamente para o machete e o cavaquinho. Pois, não beneficia em nada este repertório ter sido encontrado porque estava guardado e as pessoas que o adquiriram voltarem a guardar em sua posse sem o partilharem com os músicos destes instrumentos e com a sociedade em geral.

Não sejamos egoístas e partilhemos o que já foi descoberto e o que vai aparecer.

Sejamos portugueses e não bairristas.

Façamos mais formações nesta área.

Vamos todos nos juntar e criar um “Curso Superior em Ensino de Cordofones Portugueses” onde possam estar todos sem exceção, não apenas em performance mas sim em formação de formadores/professores, para que os nossos instrumentos sejam ensinados nos conservatórios portugueses, porque nós estamos em Portugal e o nosso país deveria defender em primeiro lugar aquilo que é nosso, que é a nossa cultura. Nós na Madeira temos o programa dos cursos de machete/braguinha, rajão e viola d’arame básico e secundário, é só adaptar para os restantes instrumentos e selecionar o repertório adequado a cada região. Estou disponível para fazer parte de uma equipa que pode ser liderada por qualquer líder interessado, pois o que eu quero é que surja um curso neste âmbito.

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